A arte de Igor Baldez como ferramenta de questionamento histórico e retomada do corpo indígena: um olhar da psicologia social.

MARIA YZABELLA SOUZA FRANCO

2026

Por muito tempo, a história e suas ciências reservaram um lugar muito específico para os povos indígenas: o lugar do objeto. Objeto de pesquisa, objeto de estudo, objeto de exposição. Nos livros formadores das escolas, corpos originários apareciam naqueles capítulos pouco cŕiticos sobre a colonização, retratados com a justificativa etnográfica e fundamentalmente pejorativa.  Eram representados como figuras exóticas, estáticas, congeladas no passado ou como elementos curiosos da natureza. O indígena era aquele que era olhado, desenhado e catalogado por mãos alheias.

As obras de Igor Baldez, artista plástico do povo Tukano, marca uma ruptura radical com essa tradição. A primeira pelo corpo que se é, realocando o observador de suas obras a uma indagação direta ou indireta: é um artista indígena em contexto urbano, reafirmando seu lugar. A segunda porque quando Igor pega no pincel, ele inverte essa lógica colonial de séculos: o indígena deixa de ser o objeto observado para se tornar o sujeito consciente que pinta, interpreta e cria.

Na psicologia e na história da arte brasileira, é comum lembrarmos do trabalho transformador de Nise da Silveira, que utilizava a expressão artística para acessar o sofrimento psíquico e a subjetividade dos seus pacientes, consequentemente o social e cultural também circunscrito às pinturas. O trabalho de Igor Baldez parte de um lugar instigante de analisar,  embora suas telas expressem seus sentimentos mais íntimos e suas percepções pessoais, processo indissociável e às vezes implícito de qualquer artista, o que ele produz é uma narrativa visual coletiva.

Portanto, a dor, a memória, a beleza ou a angústia que Igor coloca em uma tela contam histórias remotas, presentes e futuras que não pertencem apenas a ele produzindo identificação. Suas obras conectam outras subjetividades de corpos que agora se veem e se identificam não mais como objetos mas como obras vivas de arte. É a cultura Tukano no protagonismo e um chamado direto contra o epistemicídio.

Na coleção Raízes, Igor expõe a espiritualidade, símbolos culturais e rostos que se relacionam com seu povo, de origem nortista, o povo Tukano. Ao observar, percebe-se uma relação afetiva entre povos indígenas e a natureza bem expressa, uma intimidade retratada historicamente construída com vivência desses povos com a terra. Semblantes, cores e até a disposição das figuras nos instiga a admirar como elementos da floresta são tecnologias ancestrais, memórias e produção de conhecimento inclusive científico. 

As produções de Ailton Krenak (2019) colabora na formação dessa análise-crítica ao refletir sobre a separação: humano/natureza, ciência/cultura e razão/corpo, um dualismo infundado que objetifica elementos naturais e reduz conhecimentos originários a “folclore” ou “misticismo”.  Logo, conhecer o que Igor produz é promover mudança daquela perspectiva internalizada, fundamentalmente eurocêntrica e norte americana, questionando a forma que a colonialidade atravessa modos de sentir, perceber e validar culturas das quais as existências não foram reconhecidas como legítimas. A arte ensina e Igor intuitivamente sem intenção, faz arte educação.

Um texto por: Maria Yzabella Souza Franco, psicóloga (CRP 14-10209), pós graduada em Arteterapia, escritora, especialista pela Residência Multiprofissional em Saúde da Família (mariayzabella13@gmail.com).