Entre telas e narrativas: a caminhada artística de Igor Baldez

TIAGO KIRIXI MUNDURUKU

2026

Sempre acreditei que contar nossas próprias histórias é uma das formas mais importantes de afirmar quem somos. Como jornalista indígena, vejo diariamente a importância de ocupar espaços de comunicação que, durante muito tempo, falaram sobre nós sem necessariamente nos ouvir. Quando penso na trajetória de Igor Baldez, meu amigo e irmão do povo Tukano, reconheço essa mesma vontade de construir uma narrativa própria, mas por outro caminho: a arte. Conhecer Igor e acompanhar sua caminhada me faz perceber que suas pinturas não são apenas uma forma de expressão artística, mas também parte de um processo de descobertas, questionamentos e aproximação com a história e os conhecimentos de seu povo.

Existe algo muito significativo nessa caminhada, principalmente quando pensamos nas experiências de indígenas que cresceram ou vivem em contextos urbanos. Ainda enfrentamos uma sociedade que insiste em determinar como devemos ser, viver e até expressar nossas identidades. E é justamente por isso que considero importante o trabalho de Igor. Seu processo de retomada não precisa ser entendido como uma tentativa de provar seu pertencimento, mas como uma escolha de conhecer, aprender e fortalecer os vínculos com sua ancestralidade. Vejo nesse movimento uma dimensão muito humana, porque retomar também envolve dúvidas, descobertas e a coragem de reconhecer aquilo que ainda estamos aprendendo. A arte, nesse sentido, se torna um espaço onde essas experiências podem ganhar forma, cor e significado.

Talvez seja isso que mais me aproxime da caminhada de Igor: entender que a comunicação não acontece apenas pelas palavras. Enquanto eu encontro no jornalismo uma maneira de registrar histórias, ouvir os parentes e contribuir para que nossas vozes sejam reconhecidas, Igor constrói suas próprias narrativas por meio das telas. São linguagens diferentes, mas que se encontram na necessidade de falar por nós mesmos. Como amigo e como parente, admiro sua disposição de transformar a busca pelo conhecimento em criação artística. E acredito que a importância de sua trajetória está também nisso: mostrar que nossas identidades não são estáticas, que nossas histórias continuam sendo construídas e que existem muitas maneiras de viver, expressar e comunicar o que significa ser indígena no presente.